São Paulo, SP – O São Paulo Futebol Clube atravessa uma das maiores turbulências institucionais de sua história recente. Denúncias envolvendo a gestão financeira, investigações da Polícia Civil e um processo de impeachment prestes a ser votado pelo Conselho Deliberativo colocaram o presidente Júlio Casares no centro de uma crise que extrapolou os muros do Morumbi e ganhou repercussão nacional.
A seguir, a reconstrução dos principais fatos que levaram o clube a esse cenário de instabilidade política e administrativa.
Insatisfação interna antecede escândalo financeiro
Os primeiros sinais de desgaste surgiram ainda em novembro de 2025, antes da divulgação das investigações financeiras. No dia 28, Casares já era alvo de críticas internas por conselheiros e setores da oposição, motivadas por resultados esportivos abaixo do esperado e por questionamentos sobre a condução política do clube.
Em entrevistas concedidas à época, o presidente reconheceu uma “responsabilidade coletiva” pelo momento delicado do São Paulo, admitindo falhas de gestão e tentando conter o avanço do descontentamento nos bastidores.
Polícia Civil investiga movimentações financeiras atípicas
A crise ganhou contornos mais graves no dia 6 de janeiro de 2026, quando veio a público a informação de que a Polícia Civil de São Paulo havia iniciado investigações sobre movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo o clube e o presidente.
Entre os pontos apurados estão 35 saques em dinheiro vivo realizados nas contas do São Paulo entre 2021 e 2025, que somam cerca de R$ 11 milhões, além de depósitos em espécie na conta pessoal de Júlio Casares, totalizando aproximadamente R$ 1,5 milhão entre 2023 e 2025.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram que essas operações fugiam dos padrões usuais e indicavam possível uso da técnica conhecida como fracionamento — prática que pode ser utilizada para evitar alertas automáticos de fiscalização bancária.
Pressão das arquibancadas e dos conselhos
Ainda no dia 6, a repercussão foi imediata. A torcida organizada Independente divulgou nota oficial pedindo a renúncia de Casares, cobrando transparência, responsabilidade e explicações públicas mais detalhadas sobre as finanças do clube.
Internamente, o clima também se agravou. Conselheiros passaram a discutir abertamente a viabilidade de um processo de impeachment, ampliando o racha político dentro do São Paulo.
Conselho Consultivo tenta conter o avanço do impeachment
Em 7 de janeiro, o Conselho Consultivo do São Paulo, formado por ex-presidentes e figuras históricas do clube, manifestou-se oficialmente contra o impeachment. Por maioria, o grupo afirmou que, naquele momento, as acusações ainda “careciam de provas materiais” suficientes para justificar a destituição do presidente.
A posição buscou preservar a estabilidade institucional, mas acabou prolongando o impasse político e acirrando o debate entre situação e oposição.
Mudança no quórum altera o jogo político
Nos dias 8 e 9 de janeiro, a crise entrou em uma nova fase. A defesa de Júlio Casares protocolou um pedido para que o processo de impeachment fosse analisado com base em um artigo do estatuto que exige quórum qualificado de 75% dos votos dos conselheiros para a destituição do presidente.
No dia seguinte, o presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres, confirmou que a votação obedeceria a esse critério, elevando significativamente a dificuldade para a aprovação do impeachment. A decisão foi interpretada por setores da oposição como uma tentativa de blindagem política.
Nesse mesmo período, o advogado de Casares revelou que o dirigente vinha sofrendo ameaças e ataques à sua reputação, evidenciando o nível de tensão que cercava o caso.
Defesa formal e justificativa dos saques
Entre os dias 10 e 11 de janeiro, Júlio Casares apresentou ao Conselho Deliberativo uma defesa por escrito, na qual tentou justificar os saques milionários realizados nas contas do clube.
Segundo o documento, os valores teriam sido utilizados para despesas operacionais rotineiras, como pagamentos de arbitragem, transporte, logística e premiações aos jogadores — os chamados “bichos”. A defesa sustentou que não houve uso pessoal dos recursos e reforçou que todas as movimentações financeiras do presidente teriam origem lícita, compatível com sua trajetória profissional anterior ao cargo.
Caso ganha repercussão nacional
No dia 11 de janeiro, o escândalo ultrapassou o noticiário esportivo e foi destaque no programa Fantástico, da TV Globo. A reportagem abordou as investigações em curso, o processo político interno e a crise institucional vivida pelo São Paulo, ampliando o alcance do debate junto ao público geral.
Conselho decide futuro do presidente
A etapa decisiva está marcada para sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, quando o Conselho Deliberativo do São Paulo FC votará o pedido de impeachment de Júlio Casares. Para que o afastamento seja aprovado, será necessário o apoio de 75% dos conselheiros, um quórum elevado que torna o desfecho imprevisível.
Um clube dividido e sob investigação
O episódio escancarou divisões profundas entre conselheiros, dirigentes e torcidas organizadas, refletindo uma crise que vai além do campo e afeta diretamente a governança do clube. Paralelamente, a Polícia Civil segue com as investigações, e eventuais desdobramentos judiciais podem ocorrer independentemente do resultado da votação interna.
O futuro político do São Paulo será definido nos próximos dias e o resultado do impeachment pode influenciar não apenas a gestão administrativa, mas também o rumo esportivo e institucional do clube nos próximos anos.

